
Éramos pequenos, muito novos, e eu lembro-me de uma festa em casa do Vítor, em que fomos todos para cima do telhado... O telhado do Vítor era muito especial, aliás toda a casa era mágica... Parecia uma casa mexicana, com as janelas e as portas em palhinha, mas no fundo era uma casa de gente livre nos pensamentos e no modo de vida.
Creio que os dias que passei ali com eles foram dos melhores que tive em toda a vida.
Tinham cavalos e galinhas, nós andámos muitas vezes a cavalo, até sem sela, e aquele telhado em forma de escada com uma clarabóia em cima de cada divisão era um refúgio excelente para se fazer um certo número de coisas que eram, não proibidas, mas que ainda não tínhamos idade para fazer. Como fumar, por exemplo. E as clarabóias ainda permitiam ver quem andava pela casa e o que fazia. Posto de vigia sofisticado, o nosso!
Eu gostava muito daquela vida quase sem regras, dos amigos que tinha e das nossas aventuras na praia, na hípica ou simplesmente na cidade de Luanda.
O André era o amigo que eu gostava mais. Era também o meu grande amor de infância. Tudo o que eu fazia tinha que ser com ele, e claro, com o irmão dele, o Tiago, um ano mais novo do que nós. Também havia o Ken, que passou a ser inseparável.
Os nossos pais eram todos amigos, por isso, passávamos as férias quase sempre todos juntos.
Uma das vezes em que fomos passar um daqueles magníficos fins de semana ao Ambriz, na base da Petromar, nós, os putos, decidimos fumar liamba. Então um dos rapazes foi roubar aos adultos erva e mortalhas e fomos para a praia. Estava um luar de sonho, e eu aprendi a travar nesse dia. A minha mãe soube do que fomos fazer, porque sempre lhe contei tudo, mas acho que ela nunca imaginou que nós soubèssemos fumar a sério.
Quando voltámos para a casa fartámo-nos de fazer barulho. O Rui acordou e ficou possesso. Então foi chamar as nossas mães e fez "queixinhas". Apesar de elas não terem quase reacção (até se riram), nós resolvemos vingar-nos e, quando ele já dormia outra vez, enche-mo-lo de pasta de dentes. Era pasta de dentes em todo o lado! Nos olhos, no nariz, na boca, nos ouvidos... e como é óbvio, não demorou muito tempo até a casa abanar com a fúria dele. Foi um fartote de rir! A Paula e a minha mãe bem queriam ralhar connosco mas não conseguiram.
Quando a minha mãe se separou do Flé da primeira vez, foi viver com a Paula no Prédio do Livro. Então as férias ainda se tornaram mais propícias às nossas brincadeiras. Primeiro, porque esse apartamento só tinha um quarto, logo, tínhamos que dormir os três, o André, o Tiago e eu, todos juntos no sofá-cama. Galhofa toda a noite... sempre! E fora as festas e encontros de amigos quando a nós se juntavam o Frederico ou o Kenny. Bons tempos!
Foi nessa altura que, nas férias cheguei um dia depois do aniversário do André, e tive uma bela surpresa ao descer do avião! Estava lá a minha mãe, o André, o Tiago e o Kenny, todos na carrinha da Petromar. Parecia a recepção a uma estrela do rock! Na pista do Aeroporto de Luanda, eles a correrem para a escadaria do avião a fazer a confusão do costume... eu acho que a tripulação ficou um bocadinho confusa, mas como já todos conheciam a minha mãe...
Naquele tempo podia fazer-se tudo de uma maneira muito estranha. As pessoas para irem a festas e voltarem a casa depois da meia noite, podiam ser confundidas com um bandido qualquer da UNITA e presas ou mortas. Havia o recolher obrigatório e muitos subornavam os polícias corruptos com álcool ou volumes de cigarros. Que eu me lembre, os polícias em Angola não tinham instrução nenhuma, nem preparação. Andavam sempre bêbados ou ganzados, e não sabiam falar. Eu tinha e tenho pena da situação em que o meu país estava na altura e continua a estar. E o pior é que sabemos todos porquê, não é?
Por isso se vivia assim, sempre em esquemas, sempre em filmes. Se eu quisesse comparar não podia, porque não há comparação possível com país nenhum que eu conheça.
Mas para nós era sempre bom voltar a Angola, estarmos todos juntos...
Aos amigos da minha mãe ainda hoje chamo tio ou tia, porque éramos uma grande família. E acho que ainda hoje, todos separados no mapa-mundo, continuamos a sê-lo e continuamos a gostar muito uns dos outros...
Creio que os dias que passei ali com eles foram dos melhores que tive em toda a vida.
Tinham cavalos e galinhas, nós andámos muitas vezes a cavalo, até sem sela, e aquele telhado em forma de escada com uma clarabóia em cima de cada divisão era um refúgio excelente para se fazer um certo número de coisas que eram, não proibidas, mas que ainda não tínhamos idade para fazer. Como fumar, por exemplo. E as clarabóias ainda permitiam ver quem andava pela casa e o que fazia. Posto de vigia sofisticado, o nosso!
Eu gostava muito daquela vida quase sem regras, dos amigos que tinha e das nossas aventuras na praia, na hípica ou simplesmente na cidade de Luanda.
O André era o amigo que eu gostava mais. Era também o meu grande amor de infância. Tudo o que eu fazia tinha que ser com ele, e claro, com o irmão dele, o Tiago, um ano mais novo do que nós. Também havia o Ken, que passou a ser inseparável.
Os nossos pais eram todos amigos, por isso, passávamos as férias quase sempre todos juntos.
Uma das vezes em que fomos passar um daqueles magníficos fins de semana ao Ambriz, na base da Petromar, nós, os putos, decidimos fumar liamba. Então um dos rapazes foi roubar aos adultos erva e mortalhas e fomos para a praia. Estava um luar de sonho, e eu aprendi a travar nesse dia. A minha mãe soube do que fomos fazer, porque sempre lhe contei tudo, mas acho que ela nunca imaginou que nós soubèssemos fumar a sério.
Quando voltámos para a casa fartámo-nos de fazer barulho. O Rui acordou e ficou possesso. Então foi chamar as nossas mães e fez "queixinhas". Apesar de elas não terem quase reacção (até se riram), nós resolvemos vingar-nos e, quando ele já dormia outra vez, enche-mo-lo de pasta de dentes. Era pasta de dentes em todo o lado! Nos olhos, no nariz, na boca, nos ouvidos... e como é óbvio, não demorou muito tempo até a casa abanar com a fúria dele. Foi um fartote de rir! A Paula e a minha mãe bem queriam ralhar connosco mas não conseguiram.
Quando a minha mãe se separou do Flé da primeira vez, foi viver com a Paula no Prédio do Livro. Então as férias ainda se tornaram mais propícias às nossas brincadeiras. Primeiro, porque esse apartamento só tinha um quarto, logo, tínhamos que dormir os três, o André, o Tiago e eu, todos juntos no sofá-cama. Galhofa toda a noite... sempre! E fora as festas e encontros de amigos quando a nós se juntavam o Frederico ou o Kenny. Bons tempos!
Foi nessa altura que, nas férias cheguei um dia depois do aniversário do André, e tive uma bela surpresa ao descer do avião! Estava lá a minha mãe, o André, o Tiago e o Kenny, todos na carrinha da Petromar. Parecia a recepção a uma estrela do rock! Na pista do Aeroporto de Luanda, eles a correrem para a escadaria do avião a fazer a confusão do costume... eu acho que a tripulação ficou um bocadinho confusa, mas como já todos conheciam a minha mãe...
Naquele tempo podia fazer-se tudo de uma maneira muito estranha. As pessoas para irem a festas e voltarem a casa depois da meia noite, podiam ser confundidas com um bandido qualquer da UNITA e presas ou mortas. Havia o recolher obrigatório e muitos subornavam os polícias corruptos com álcool ou volumes de cigarros. Que eu me lembre, os polícias em Angola não tinham instrução nenhuma, nem preparação. Andavam sempre bêbados ou ganzados, e não sabiam falar. Eu tinha e tenho pena da situação em que o meu país estava na altura e continua a estar. E o pior é que sabemos todos porquê, não é?
Por isso se vivia assim, sempre em esquemas, sempre em filmes. Se eu quisesse comparar não podia, porque não há comparação possível com país nenhum que eu conheça.
Mas para nós era sempre bom voltar a Angola, estarmos todos juntos...
Aos amigos da minha mãe ainda hoje chamo tio ou tia, porque éramos uma grande família. E acho que ainda hoje, todos separados no mapa-mundo, continuamos a sê-lo e continuamos a gostar muito uns dos outros...
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