sexta-feira, 12 de outubro de 2007



E, como é logico, não posso deixar de falar das amigas igualmente importantes... Ana e Yara... Estas eram as minhas amigas em Luanda. É claro que não eram as únicas, porque sempre fui muito extrovertida e tenho (graças a Deus!!) muitos amigos.



A Ana é filha dos meus padrinhos, que assinaram o meu registo, que era obrigatório na altura em que eu nasci. A Yara é filha da Paula, outra grande amiga da minha mamã... E tal como as mamãs eram inseparáveis, nós também. Assim como era com os rapazes, era com as meninas, embora as brincadeiras fossem mais femininas. Engraçado, eu sempre fui, de todas a mais maria-rapaz. Mas com elas tive, também momentos únicos, dignos de estórias de cabeceira.



Todas nós èramos meninas muito românticas, e muito vaidosas também. De tal maneira que houve um Natal em que as nossas mães nos compraram umas caixinhas de pinturas. A minha madrinha Mena comprou uma caixinha toda sofisticada para a Ana, e então, para que nós as duas não ficássemos tristes também tivémos direito às nossas. E tudo com o maior entusiasmo, para que não pensássemos que o presente da Ana fosse melhor... artimanhas de mãe!



O que elas nunca imaginaram foi que com aquele filme todo a Ana ia-se sentir diferente e posta de lado. Então aconteceu o impossível: ela acabou por querer uma caixa de pinturas igual à nossa! Foi um berreiro!



A minha prima era muito engraçada... só depois de nós próprias a convencermos de que a caixinha dela era mais fixe e que podíamos todas brincar com todas as pinturas, acabámos por nos divertir muito.




Estas coisas aconteciam porque não havia facilidade de compra deste género de produtos em Angola. A vida era muito má para o povo que não tinha nada, e mesmo aqueles que, como nós conseguiam ter alguma coisa ou era por esquemas, ou eram pessoas que viajavam muito e traziam as coisas de fora. Eu lembro-me do dinheiro que se gastava num saco de batatas, e era assombroso! Tinhamos que ter um saco cheio de milhões de kwanzas para as compras mais básicas.



Os armazéns para o povo não tinham quase nada, de vez em quando ainda aparecia alguma coisa de jeito. As pessoas compravam muito no mercado, aliás, compravam de tudo lá. Luanda tem o maior mercado do mundo, o Roque Santeiro (baptizado segundo a famosa novela da Globo), e, se fecharmos os olhos e pensarmos em qualquer coisa, o Roque Santeiro tem. Também tem muitos mutilados da guerra e dos estilhaços das minas, muitos, milhares! Eu às vezes pensava que era impossível existirem tantas pessoas feridas por causa da guerra, mas a verdade é que a população de Angola foi sendo, e continua a ser dizimada.



Eu não quero entrar num monólogo político e por isso não me vou pronunciar mais acerca disso. Mas era preciso haver uma grande revolução, uma grande mudança na mentalidade dos Angolanos para transformar aquela terra na terra linda que já foi... ou pelo menos para transformar Angola numa terra de liberdade! É tão grande e cabemos lá todos... Não há necessidade de nos andarmos a ferir e a roubar uns aos outros. Esta é a maior batalha a travar!




Ainda falando nos Natais em Angola, vou confessar agora uma coisa que eu acho que até hoje a minha mãe ainda não sabe... Eu costumva dar alguns dos meus presentes aos nossos vizinhos e aos vizinhos dos meus primos na Maianga. A minha mãe dava pela falta deles mas nunca soube o que lhes acontecia. Era só porque me fazia pena... Se algum menino ou menina me dissesse que não tinha recebido presentes no Natal, dáva-me um nó tão grande na garganta, e eu começava a chorar... de qualquer modo, sempre fui uma chorona, mas fazia-me aflição. Nunca me arrependi de fazer isto, e sei que apesar de lhe custar muito dar-me aquelas coisas, ela não se ia zangar muito, a minha mãe tem um grande coração. Até a ela lhe custava ver a situação das pessoas lá. E o que ela pudesse fazer para ajudar, ela fazia.




Uma vez uma mulher deu o nome dela e da João ao filho que nasceu, porque elas levaram-na ao hospital num dia de tiroteio. As pessoas lá são assim, muito humildes, muito simples, sabem agradecer de forma correcta, sabem receber como ninguém... Eu costumo dizer que quem vai passar férias a Angola não vê a fome. As pessoas dão tudo para que a pessoa se sinta bem, e dão sempre festas, almoços e jantares em honra do convidado, do amigo, do familiar... Se houver comida e cerveja "a estalar" o angolano está no paraíso!!!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007


Éramos pequenos, muito novos, e eu lembro-me de uma festa em casa do Vítor, em que fomos todos para cima do telhado... O telhado do Vítor era muito especial, aliás toda a casa era mágica... Parecia uma casa mexicana, com as janelas e as portas em palhinha, mas no fundo era uma casa de gente livre nos pensamentos e no modo de vida.
Creio que os dias que passei ali com eles foram dos melhores que tive em toda a vida.
Tinham cavalos e galinhas, nós andámos muitas vezes a cavalo, até sem sela, e aquele telhado em forma de escada com uma clarabóia em cima de cada divisão era um refúgio excelente para se fazer um certo número de coisas que eram, não proibidas, mas que ainda não tínhamos idade para fazer. Como fumar, por exemplo. E as clarabóias ainda permitiam ver quem andava pela casa e o que fazia. Posto de vigia sofisticado, o nosso!
Eu gostava muito daquela vida quase sem regras, dos amigos que tinha e das nossas aventuras na praia, na hípica ou simplesmente na cidade de Luanda.
O André era o amigo que eu gostava mais. Era também o meu grande amor de infância. Tudo o que eu fazia tinha que ser com ele, e claro, com o irmão dele, o Tiago, um ano mais novo do que nós. Também havia o Ken, que passou a ser inseparável.
Os nossos pais eram todos amigos, por isso, passávamos as férias quase sempre todos juntos.
Uma das vezes em que fomos passar um daqueles magníficos fins de semana ao Ambriz, na base da Petromar, nós, os putos, decidimos fumar liamba. Então um dos rapazes foi roubar aos adultos erva e mortalhas e fomos para a praia. Estava um luar de sonho, e eu aprendi a travar nesse dia. A minha mãe soube do que fomos fazer, porque sempre lhe contei tudo, mas acho que ela nunca imaginou que nós soubèssemos fumar a sério.
Quando voltámos para a casa fartámo-nos de fazer barulho. O Rui acordou e ficou possesso. Então foi chamar as nossas mães e fez "queixinhas". Apesar de elas não terem quase reacção (até se riram), nós resolvemos vingar-nos e, quando ele já dormia outra vez, enche-mo-lo de pasta de dentes. Era pasta de dentes em todo o lado! Nos olhos, no nariz, na boca, nos ouvidos... e como é óbvio, não demorou muito tempo até a casa abanar com a fúria dele. Foi um fartote de rir! A Paula e a minha mãe bem queriam ralhar connosco mas não conseguiram.

Quando a minha mãe se separou do Flé da primeira vez, foi viver com a Paula no Prédio do Livro. Então as férias ainda se tornaram mais propícias às nossas brincadeiras. Primeiro, porque esse apartamento só tinha um quarto, logo, tínhamos que dormir os três, o André, o Tiago e eu, todos juntos no sofá-cama. Galhofa toda a noite... sempre! E fora as festas e encontros de amigos quando a nós se juntavam o Frederico ou o Kenny. Bons tempos!
Foi nessa altura que, nas férias cheguei um dia depois do aniversário do André, e tive uma bela surpresa ao descer do avião! Estava lá a minha mãe, o André, o Tiago e o Kenny, todos na carrinha da Petromar. Parecia a recepção a uma estrela do rock! Na pista do Aeroporto de Luanda, eles a correrem para a escadaria do avião a fazer a confusão do costume... eu acho que a tripulação ficou um bocadinho confusa, mas como já todos conheciam a minha mãe...
Naquele tempo podia fazer-se tudo de uma maneira muito estranha. As pessoas para irem a festas e voltarem a casa depois da meia noite, podiam ser confundidas com um bandido qualquer da UNITA e presas ou mortas. Havia o recolher obrigatório e muitos subornavam os polícias corruptos com álcool ou volumes de cigarros. Que eu me lembre, os polícias em Angola não tinham instrução nenhuma, nem preparação. Andavam sempre bêbados ou ganzados, e não sabiam falar. Eu tinha e tenho pena da situação em que o meu país estava na altura e continua a estar. E o pior é que sabemos todos porquê, não é?
Por isso se vivia assim, sempre em esquemas, sempre em filmes. Se eu quisesse comparar não podia, porque não há comparação possível com país nenhum que eu conheça.
Mas para nós era sempre bom voltar a Angola, estarmos todos juntos...
Aos amigos da minha mãe ainda hoje chamo tio ou tia, porque éramos uma grande família. E acho que ainda hoje, todos separados no mapa-mundo, continuamos a sê-lo e continuamos a gostar muito uns dos outros...