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E, como é logico, não posso deixar de falar das amigas igualmente importantes... Ana e Yara... Estas eram as minhas amigas em Luanda. É claro que não eram as únicas, porque sempre fui muito extrovertida e tenho (graças a Deus!!) muitos amigos.

A Ana é filha dos meus padrinhos, que assinaram o meu registo, que era obrigatório na altura em que eu nasci. A Yara é filha da Paula, outra grande amiga da minha mamã... E tal como as mamãs eram inseparáveis, nós também. Assim como era com os rapazes, era com as meninas, embora as brincadeiras fossem mais femininas. Engraçado, eu sempre fui, de todas a mais maria-rapaz. Mas com elas tive, também momentos únicos, dignos de estórias de cabeceira.
Todas nós èramos meninas muito românticas, e muito vaidosas também. De tal maneira que houve um Natal em que as nossas mães nos compraram umas caixinhas de pinturas. A minha madrinha Mena comprou uma caixinha toda sofisticada para a Ana, e então, para que nós as duas não ficássemos tristes também tivémos direito às nossas. E tudo com o maior entusiasmo, para que não pensássemos que o presente da Ana fosse melhor... artimanhas de mãe!
O que elas nunca imaginaram foi que com aquele filme todo a Ana ia-se sentir diferente e posta de lado. Então aconteceu o impossível: ela acabou por querer uma caixa de pinturas igual à nossa! Foi um berreiro!
A minha prima era muito engraçada... só depois de nós próprias a convencermos de que a caixinha dela era mais fixe e que podíamos todas brincar com todas as pinturas, acabámos por nos divertir muito.
Estas coisas aconteciam porque não havia facilidade de compra deste género de produtos em Angola. A vida era muito má para o povo que não tinha nada, e mesmo aqueles que, como nós conseguiam ter alguma coisa ou era por esquemas, ou eram pessoas que viajavam muito e traziam as coisas de fora. Eu lembro-me do dinheiro que se gastava num saco de batatas, e era assombroso! Tinhamos que ter um saco cheio de milhões de kwanzas para as compras mais básicas.
Os armazéns para o povo não tinham quase nada, de vez em quando ainda aparecia alguma coisa de jeito. As pessoas compravam muito no mercado, aliás, compravam de tudo lá. Luanda tem o maior mercado do mundo, o Roque Santeiro (baptizado segundo a famosa novela da Globo), e, se fecharmos os olhos e pensarmos em qualquer coisa, o Roque Santeiro tem. Também tem muitos mutilados da guerra e dos estilhaços das minas, muitos, milhares! Eu às vezes pensava que era impossível existirem tantas pessoas feridas por causa da guerra, mas a verdade é que a população de Angola foi sendo, e continua a ser dizimada.
Eu não quero entrar num monólogo político e por isso não me vou pronunciar mais acerca disso. Mas era preciso haver uma grande revolução, uma grande mudança na mentalidade dos Angolanos para transformar aquela terra na terra linda que já foi... ou pelo menos para transformar Angola numa terra de liberdade! É tão grande e cabemos lá todos... Não há necessidade de nos andarmos a ferir e a roubar uns aos outros. Esta é a maior batalha a travar!
Ainda falando nos Natais em Angola, vou confessar agora uma coisa que eu acho que até hoje a minha mãe ainda não sabe... Eu costumva dar alguns dos meus presentes aos nossos vizinhos e aos vizinhos dos meus primos na Maianga. A minha mãe dava pela falta deles mas nunca soube o que lhes acontecia. Era só porque me fazia pena... Se algum menino ou menina me dissesse que não tinha recebido presentes no Natal, dáva-me um nó tão grande na garganta, e eu começava a chorar... de qualquer modo, sempre fui uma chorona, mas fazia-me aflição. Nunca me arrependi de fazer isto, e sei que apesar de lhe custar muito dar-me aquelas coisas, ela não se ia zangar muito, a minha mãe tem um grande coração. Até a ela lhe custava ver a situação das pessoas lá. E o que ela pudesse fazer para ajudar, ela fazia.
Uma vez uma mulher deu o nome dela e da João ao filho que nasceu, porque elas levaram-na ao hospital num dia de tiroteio. As pessoas lá são assim, muito humildes, muito simples, sabem agradecer de forma correcta, sabem receber como ninguém... Eu costumo dizer que quem vai passar férias a Angola não vê a fome. As pessoas dão tudo para que a pessoa se sinta bem, e dão sempre festas, almoços e jantares em honra do convidado, do amigo, do familiar... Se houver comida e cerveja "a estalar" o angolano está no paraíso!!!
